domingo, 14 de abril de 2013

Vergonha de LER UM LIVRO!

O título começa chocante mas é uma verdade imensurável que antigamente tive conviver na minha infância.
Vim de uma família pobre, trabalhadora e honesta na medida do possível (sarcasmo). Vamos lá, quando morava na casa de minha avó numa casa de três cômodos com o quarto para minha família (6 integrantes) e na sala meu tio e avô (7 integrantes) tudo junto, misturado e sem privacidade! Nada de cada um com seu quarto como nos filmes americanos e ou de um família bem estruturada financeiramente falando. Enfim, meu pai sempre pedia para minha irmã, primos e eu a estudar e a ler livros. Porém, não tinha muitos livros e os poucos que tinha era acadêmicos para idade avançada. Então, era assim,  bullying era uma coisa tão natural na casa de meu avô que nem sabíamos que isso era maldoso ; quando pegávamos para ler um livro ou estudar vinha um primo, tio, vizinho e até mesmo meu pai e dizia:
- Você? Lendo um livro? Ta de piada?
- Acha que é rico pra ficar lendo? tem que ajudar a sua mãe a cuidar da casa!
Eu me perguntava como vou estudar se quando eu faço isso não posso e dava vergonha de estudar. Com o tempo eu estudava só na escola, biblioteca ou na casa de amigos. Na casa de meus avós era perda de tempo fazer isso e na época de prova era uma tormenta de primeira linha; trabalho escolar nunca tínhamos dinheiro e ajuda pra fazer era assim:
- Se vira você não é tatu! vai na biblioteca e se vira!
Teve uma vez que meu pai quis ajudar, mas o medo de ser humilhado era tanto que ia para a biblioteca estudar. Lembro o quanto chorava por ser o aluno que não conseguia fazer nenhum trabalho acadêmico e nas provas quando tirava nota boa tipo um B era um alívio.

Na segunda série quando minha professora Marisa fez uma pergunta que mexeu muito comigo  era: O que você quer ser quando você crescer?
Não sabia que profissão queria, mas tinha duas coisas que não queria!
1º seu um policial e 2º não ser pobre. 
Quando disse isso um colega meu Douglas riu e disse:
- Você nunca vai ser rico! Você, mora numa casa velha caindo aos pedaços!
Ouvi muitos risos de outros colegas; nas eu disse:
- Posso trabalhar e mudar isso, quero ser alguém importante e ter meu nome num livro ou numa rua para meus pais terem orgulho de mim!
Quando terminei de dizer isso já estava chorando muito e a professora Marisa veio me consolar. Foi a primeira fez que chorei de tanta dor em meu coração. Eu nunca tive vergonha de onde morava e sabia que um dia isso poderia mudar.

Meu pai quando chegava do trabalho ele só me via no vídeo game e perguntava:
- Você não estuda? só vejo nesse vídeo game?
Ele mal sabia que era meu refúgio para seguir em frente e alimentava meus sonhos.

Anos se passaram, mudamos de casa... saí da casa de meus pais e só então não tive vergonha de estudar e mostrar todo meu potencial. Ainda não estou rico como gostaria de estar, mas trabalho com Braille algo que me orgulho muito e estou concluindo meu curso de pedagogia. Até agora foram muitas vitórias, choros, alegrias e perdas. Mas nunca desistindo de brilhar e ensinar as outras pessoas a brilharem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário